Tuesday, June 05, 2012

Cenas do dia


A vida passa ligeira pela janela do ônibus - o mundo, borrão colorido. Uma menina tenta ler sua mais nova aquisição literária - "História abreviada da literatura portátil", título um tanto pomposo para uma história abreviada -, mas os constantes solavancos a impedem. O motorista, por alguma razão misteriosa, parece jamais pisar completamente no freio. No máximo, segura a meia embreagem, o que causa tremedeiras em toda a estrutura do veículo. "O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel", a citação de Paul Valéry aparece numa das primeiras páginas. Ela ergue os olhos quase com raiva diante de uma nova trepidação. Foi nesse momento que viu.

O sorriso do meninote correndo atrás do ônibus poderia comportar, também, o infinito. Devia ter uns seis anos, sete no máximo. Ela ainda pôde vislumbrar o rosto preocupado da mãe. O resto, na cabeça da moça, se passava mais ou menos assim. O menino correu e correu. Correu tempo suficiente até que ela compreendesse que não era o ônibus que ele perseguia.

Logo ela enxergou a enorme bolha de sabão um pouco à frente. A mãe desaparecera. A criança finalmente alcançou seu objetivo. No momento em que tocou a bolha, no entanto, subitamente entrou dentro dela e saiu voando em seu pequeno casulo de água e detergente. O menino passou pelo ônibus e acenou para ela. Surpresa com essa atitude, ela se distraiu e, tão rápido quanto começara tudo aquilo, a bolha estourou fazendo desaparecer para sempre o rapazinho.

Foi quando um casal surgiu no seu campo de visão. Ao contrário das paisagens que se desenrolavam através do vidro, aquela cena acontecia em câmera lenta. O homem pegou a mão da mulher e disse alguma coisa. Há belezas que a imaginação não consegue supor. Uma música começou a tocar abafada, porque alguns momentos simplesmente pedem por uma boa trilha sonora.

Sit me down. Shut me up. I'll calm down. And I'll get along with you. O homem levantou a mão hesitante e fez o carinho no rosto da mulher. Ela sorriu sem jeito. Não se beijaram. Um ficou olhando fundo nos olhos do outro, imersos cada um em seu próprio mar - os dela, castanhos; os dele, ora verdes, ora azuis. Olhos escuros e densos como a terra. Olhos-líquidos e revoltos, a iminência do naufrágio. Naquela imensidão de cores, se fundiram. O tempo voltou a atropelar a paisagem, mas a tarde ganhou um tom completamente novo.

Do outro lado da rua, havia um gato que dividia preguiçosamente o banco com um homem. Já passava do meio dia e, provavelmente, os dois tinham decidido tirar um cochilo depois do almoço. Em seu sonho, o gato era um homem. Tinha se apaixonado por uma moça que viu passar naquele mesmo dia, pela manhã. Ela tinha coxas grossas e torneadas, completamente visíveis para qualquer um com o ângulo de visão do gato - o mundo de baixo para cima. Na sua fantasia, o gato segurava a mulher e lhe dizia assim: Don't, it's not safe no more. I've got to see you one more time soon, you were born in 1984. Já o homem – o outro que nunca foi gato e que não entendia inglês – acordou com os ruídos daquele sonho estranho.

A moça que observava a tudo se enganara: não, ele não tinha almoçado ainda. Isso ficou evidente quando o ilustre desconhecido levantou, se espreguiçou e arrastou o corpo magro até a lata de lixo mais próxima. O homem, meu Deus, era um bicho - ou um poema de Manoel Bandeira ao revés. Não, não. O homem era inegavelmente um homem. Era exatamente a sua humanidade que perturbava, nada mais.

A mocinha sacudiu a cabeça como que para afastar algum tipo de pensamento. Deu um pause na música que ouvia no iPhone como se parar o som pudesse interromper também o movimento frenético de suas ideias. A esta altura, um senhor de meia idade entrou no ônibus. Mal se acomodou em seu assento, começou a cantar um bolero. Ela olhou espantada para o novo passageiro. Essas coisas não deveriam acontecer somente numa produção com Fred Astaire e Ginger Rogers? Sabendo disso, ela esperou placidamente que todos na condução começassem também, de súbito, a acompanhar o Carlos Gardel brasileiro; mas nada aconteceu. Só podia distinguir, entre os ruídos do trânsito e das conversas, a voz daquele senhor. Ele não era um cantor magistral, mas parecia pouco se importar. Só parou seu pequeno número quando começou uma discussão.

O motorista aparentemente tinha feito um desvio no trajeto original. Uma das ruas estava fechada para um evento ou coisa do tipo. Uma mulher com uma criança de colo foi até perto do cobrador e começou um novo show que ofuscou a apresentação do insuspeitado cantor. Ele resmungou algo como "Não se pode mais cantar com essa barulheira" e, sem cerimônia, puxou a cordinha. As cortinas se abriram e ele partiu para o palco das ruas.

Foi o tempo necessário para outra artista entrar em cena. No décimo segundo andar de um prédio de incontável altura, a mulher parecia desafiar a própria sorte, a própria morte. Começou, cuidadosa, um misterioso balé – metade do corpo para fora da janela, as mãos ágeis passavam um pano contra a barreira invisível do vidro. Poucos podiam apreciar o espetáculo. Cada gesto parecia meticuloso e calculado, um ensaio rítmico. O vento fazia dançar também o cabelo daquela bailarina das alturas. Depois de um movimento mais brusco, sem sequer agradecer sua plateia, ela voltou para o anonimato das coxias.

A próxima figura era uma menina, mas não por muito tempo. Ela não podia se dar ao luxo de perseguir bolhas de sabão. Não estava apenas do outro lado da rua, mas do outro lado da vida. No meio fio, um mar de gente de um lado - a segurança das calçadas - e um mar de carros do outro - o perigo, sempre ele. Viver, para a menina, era como se equilibrar numa corda bamba.

Aos olhos apressados da moça do ônibus, ela logo foi mudando de fisionomia. Parecia mais velha agora. Os peitos já brotavam como frutas maduras. O corpo maltrapilho exibia algumas curvas, embora, subnutrido, não pudesse ostentar o ar de saúde das donzelas verdadeiramente bonitas. Um homem desconhecido, com ao menos 30 anos a mais, passava a mão pela intimidade daquela garota. Ela escondia o rosto, mas, num
lampejo, foi possível enxergar o quão tristes eram aqueles olhos. Olhos-buracos-negros: profundos e sem volta. Embora a menina continuasse a crescer sob as vistas da passageira do ônibus, ambas sabiam: aquela moça nunca se tornaria mulher.

Adiante, numa curva qualquer, havia um dragão. Soltava fogo pela boca, o homem no semáforo. A sua frente, a frieza metálica dos carros - vidros quase sempre erguidos, mas ele não ligava. Há quem faça arte até quando os sinais estão fechados. Não se queimava, o dragão, acostumado à vida de labaredas. Antes que se imagine, a chama se apaga. No fim sobram, talvez, alguns trocados.

Já no caminho de um rapazote – quinze, dezesseis anos – existia uma pedra. Em plena luz do dia, ele escapava da sua condição de menino. Poderia – quem sabe? – correr e embarcar numa bolha de sabão. A fantasia ao alcance de uma tragada. Mas diferente do primeiro menino, este não tinha uma mãe preocupada para seguir seus passos. E, então, sem que ninguém alterasse o semblante, ele corria. Corria atrás de uma bolha que não alcançava nunca. Correria até sumir numa nuvem de fumaça e, então, seria como se nunca tivesse existido. O mundo continuaria a passar pela janela da condução, que continuaria a passar pelas ruas da cidade.

Sim, a vida passa ligeira pela janela do ônibus. É difícil distinguí-la, mas lá está ela. Vez ou outra surpreende com um sorriso. N’outros momentos, quase faz chorar. Não existe beleza maior que a paisagem que a vista enquadra – sejam seus olhos castanhos, verdes-azuis ou negros sem fim. São alegrias que parecem inesgotáveis, dramas homéricos ou pequenas catástrofes. A literatura está on the road, como em Kerouac. A retina capta cada movimento como numa fotografia. A imaginação faz o resto. “O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel”. A menina se dá conta de que jamais passou dessa frase. Lembra das histórias abreviadas, da vida-literatura portátil. E põe-se a escrever.

Distraída, ela passa do ponto (final).

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